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A história do San Antonio Spurs – A era George Gervin
por Renan Ronchi
Olá, queridos leitores. Aqui estou eu de volta com a segunda parte da coluna “A história do San Antonio Spurs”. Na primeira parte, falamos sobre o Spurs nos seus primeiros anos, em sua época de Dallas Charrapals, e sua má campanha pela liga. O time se mudou para San Antonio e o novo comandante George Gervin parecia liderar o Spurs no caminho certo até a ABA terminar devido a uma crise financeira. Com isso, a NBA permitiu a vinda de 4 times da extinta ABA para compor suas divisões. Foram escolhidos o Indiana Pacers, o New York Nets, o Denver Nuggets e o San Antonio Spurs. Nesse período surgiram algumas discussões e contratos. Alguns deles pagando outros proprietários de times para não entrar, outros para comprar outras franquias e o Spirit of St. Louis (sim, isso é nome de time) até ficou com um sétimo dos direitos do Spurs na televisão! De qualquer modo, os problemas extra quadras estavam resolvidos e finalmente a temporada na NBA iria começar.
O Spurs, na sua primeira temporada, fez 44-38. Nada mau para quem enfrenta agora adversários de muito mais peso, como o Boston Celtics e o Philadelphia 76ers. Junto com o Denver Nuggets, que havia conseguido 50 vitórias, mostraram que não estavam de brincadeira e que estavam prontos desde cedo para vencer a liga, mas o Spurs foi eliminado logo no primeiro round pelo Boston Celtics, mais experiente, e em 2 tranqüilos jogos. Na temporada seguinte, uma disputa interessante marcou a liga. George Gervin e David Thompson, líder do Denver Nuggets, disputavam o prêmio de maior cestinha da liga. No último dia da temporada, o Nuggets já estava classificado e resolveram passar a bola para Thompson fazer muitos pontos. Ele fez 73 pontos naquela noite, e estava a um passo de ganhar a disputa, já que Gervin precisava fazer 58 pontos no próximo jogo. Mas “The Iceman” conseguiu essa marca logo no terceiro quarto, fazendo 63 pontos no final do jogo e levando seu primeiro título de cestinha pra casa. Essa história já foi contada pelo Zé Boquinha na transmissão da ESPN, que a maioria dos amantes do basquete devem acompanhar.
Na temporada seguinte percebeu-se uma maior valorização no ataque e menor na defesa. O Spurs teve uma média de 119.3 pontos por jogo, muita coisa até para o Suns, hoje em dia. O time foi campeão da divisão novamente e George Gervin ganhou seu segundo título seguido de cestinha da liga. Nos playoffs, o time enfrentou o poderoso Philadelphia 76ers de Julius Erving. Chegou nas finais de conferência contra o Washington Bullets e abriu um 3-1, ficando a um jogo de uma final inédita. Porém, o time fez algo surpreendente ao perder 3 jogos seguidos e ser desclassificado no último jogo, que terminou em 107-105. Foi uma derrota frustante e que levaria 20 anos para o Spurs se recuperar e chegar na sua inédita final.
Em 1980, a crise chegou. George Gervin ganhou seu terceiro título de cestinha da liga e o inédito prêmio de MVP, mas para isso a equipe abriu mão de sua especialidade, a defesa. Fez um recorde de 41-41 e foi eliminado facilmente nos playoffs pelo Houston Rockets. Para compensar, o Spurs trouxe na temporada seguinte Dave Corzine, Dave Johnson e Reggie Johnson, especialistas em defesa. Isso gerou um 52-30 na temporada seguinte, mas novamente o Spurs viria a perder para o Rockets, dessa vez em disputados 7 jogos. Em 1982 Gervin ganhou seu quarto e último título de cestinha da liga, e o time com o recorde de 48-34, o Spurs venceu facilmente o SuperSonics em 5 jogos mas nos playoffs foi varrido pelo Los Angeles Lakers.
A era George Gervin já estava chegando ao fim, embora Gervin não demonstrasse. Em uma troca com o Chicago Bulls o Spurs adquiriu a ex estrela da ABA Artis Gilmore e enfim fez uma campanha digna de um concorrente ao título, com 53-29. Nos playoffs, a surpresa. A série contra o Denver Nuggets foi definida em 5 jogos com uma média incrível de 132.8 pontos feitos e 119.5 pontos tomados. Chegaram nas finais de conferência novamente (dessa vez pelo lado oeste, o time mudou de conferência com a chegada de alguns times), mas viriam a perder para o Los Angeles Lakers da famosa era showtime, em 6 jogos.
Em 1983/1984, o início da queda do Spurs. Mesmo com Gervin pontuando, problemas com o comando técnico do time e a contusão de Artis Gilmore. O time fez o pior começo de temporada da sua história, com 6-12, e pela primeira vez desde que chegaram na NBA o Spurs perdeu os playoffs com o recorde de 37-45. No ano seguinte, Cotton Fitzsimmons assumiu o comando técnico. Apesar de seu estilo apoiar a defesa, o time não era mais o mesmo de antes. Conseguiu um exato 41-41 e não aguentou a pressão contra o primeiro colocado Denver Nuggets, perdendo em 5 doloridos jogos. Agora, Gervin já não fazia mais tantos pontos e a idade começaria a pesar. Em 1984 Gervin foi trocado para o Bulls, onde viria a ser o mentor de Michael Jordan. Ficou apenas um ano por lá e logo em seguida foi jogar na Itália. Mas mais importante do que o Bulls ou a Itália foi a era que terminou após a sua saída no San Antonio Spurs.
The Iceman ainda é conhecido por todos os fãs. Embora a maioria dos seus recordes tenha sido quebrada por David Robinson, ele ainda possui os recordes de arremessos feitos (9.201), arremessos tentados (18.111) e pontos (23.602).
Esse foi o fim da segunda parte dessa coluna. Na terceira parte, o apocalipse. O Spurs passa pelo seu pior momento na sua história com campanhas ridículas até ganhar a primeira escolha do draft, onde a solução dos seus problemas viria com a chegada do almirante David Robinson. Até a próxima!
Veteranos continuam em pauta

Agentes livres irrestritos que atuaram na última temporada pelo San Antonio Spurs, o ala Michael Finley e o ala-pivô Robert Horry, ambos jogadores veteranos, continuam nos planos da equipe texana para fazerem parte de seu plantel na próxima temporada. As negociações com ambos ainda não foram abertas, mas o general manager do Spurs, RC Buford, afirmou que há grande interesse na renovação dos dois contratos.
E pelo lado dos jogadores também parece haver interesse na permanência pelos lados do Texas. O agente de Finley, Henry Thomas, afirmou no último final de semana que permanecer no Spurs é a prioridade de seu agenciado: “Recebemos propostas da Europa e sabemos que há o interesse de outros times, mas permanecer no Spurs é o grande desejo do Michael. Lá ele conseguiu realizar seu maior sonho, que era conquistar um anel de campeão. O Fin é muito feliz lá” afirmou Thomas.
Enquanto isso, Horry ainda não fez pronunciamento oficial em relação a seu futuro, mas fontes próximas ao jogador afirmam que caso o ele decida continuar jogando seu destino deve mesmo ser uma aposentadoria no Texas na próxima temporada. Mesmo assim, as negociações com o jogador heptacampeão da NBA estão menos adiantadas do que as com Finley.
Pequim 2008 – Estados Unidos

Estados Unidos

Eles são a seleção mais temida desses Jogos. E quem os teme não teme qualquer um. Formado por jogadores da NBA, principal liga de basquete do mundo, o selecionado dos EUA tem o luxo de escolher os melhores entre os melhores. A infra-estrutura do esporte no país e o fato de sua Liga ser uma das melhores e mais ricas do mundo contribuem em muito para que os estadunidenses sejam tão temidos. A sede com que eles devem vir para conquistarem o ouro deve ser notória, devido aos recentes fracassos olímpicos e mundiais do chamado Dream Team.
Participações em Olimpíadas: 1936, 1948, 1952, 1956, 1960, 1964, 1968, 1972, 1976, 1984, 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008
Melhor participação: medalha de ouro em 1936, 1948, 1952, 1956, 1960, 1964, 1968, 1976, 1984, 1988, 1992, 1996, 2000
Grandes feitos no basquete: os Estados Unidos são o país com maior número de medalhas de ouro nos Jogos: 12 em 15 participações (sem contar Pequim-2008)
Participações em Mundiais: 1950, 1954, 1959, 1963, 1967, 1970, 1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1994, 1998, 2002, 2006
Melhor participação: campeão em 1950, 1954, 1986, 1994
Os convocados
Pivô – Dwight Howard (Orlando Magic – EUA)
Ala-pivô – Chris Bosh (Toronto Raptors – CAN)
Ala-pivô – Carlos Boozer (Utah Jazz – EUA)
Ala – Carmelo Anthony (Denver Nuggets – EUA)
Ala – LeBron James (Cleveland Cavaliers – EUA)
Ala – Tayshaun Prince (Detroit Pistons – EUA)
Ala-armador – Kobe Bryant (Los Angeles Lakers – EUA)
Ala-armador – Michael Redd (Milwaukee Bucks – EUA)
Ala-armador – Dwayne Wade (Miami Heat – EUA)
Armador – Jason Kidd (Dallas Mavericks – EUA)
Armador – Chris Paul (New Orleans Hornets – EUA)
Armador – Deron Williams (Utah Jazz – EUA)
Onde os Estados Unidos podem chegar?
A seleção dos EUA chega como franca favorita à conquista da medalha de ouro. A decepção da perda da medalha em Atenas-2004 e das perdas dos dois últimos mundiais (sendo o de 2002 em solo estadunidense e sem chegada ao pódio) motivam essa seleção, que em questão de talento conta com os melhores jogadores do mundo. Declaradamente, é o time a ser batido.
A caminhada dos Estados Unidos
Os EUA sobraram no Pré-Olímpico das Américas. Atuando em casa, Las Vegas, os jogadores da NBA não deixaram que nenhum adversário atrapalhasse seu objetivo: classificar-se facilmente para os Jogos. Para isso, despacharam Brasil, Porto Rico e Argentina, sendo que apenas a última está nos Jogos desse ano.
Antes de entrarem na disputa pela medalha, fazem amistosos contra combinados de jogadores da NBA que não foram convocados, mas que formam times tão bons quanto os que estão em Pequim.
Destaque

A rotatividade estadunidense é incrível. Se Bryant sair, entra Redd. Se Williams cansar, Paul arma. LeBron já jogou demais? Anthony e Prince estão aptos para substituí-lo. Mesmo assim, o ala LeBron James e o ala-armador Kobe Bryant são os grandes destaques individuais dessa seleção, que é recheada de craques em todas as posições.
Pequim 2008 – Angola

O Spurs Brasil inicia hoje a sua cobertura sobre os Jogos Olímpicos de Pequim, evento esportivo mais esperado do ano. Para tal, iniciaremos com análises sobre as 12 seleções participantes do torneio masculino de basquete, para que você, leitor, não perca um só lance desse tão importante campeonato.
Angola

A seleção angolana é pouco conhecida pela maioria das pessoas que acompanham basquete. Deveras, pois o selecionado angolano disputa apenas competições em seu continente de origem, a África, e raramente obtém destaque no cenário mundial. A falta de apoio para as seleções locais e a miséria que assola o continente também prejudicam o crescimento e a exposição do basquete africano como um todo. Entretanto, Angola participará de sua quinta Olimpíada consecutiva, sendo, nesse ano, o único representante da África.
Participações em Olimpíadas: 1992, 1996, 2000, 2004, 2008
Melhor participação: décimo lugar em 1992
Grandes feitos no basquete: nove títulos de campeão da África obtidos: 1989, 1992, 1993, 1995, 1999, 2001, 2003, 2005, 2007
Participações em Mundiais: 1986, 1990, 1994, 2002, 2006
Melhor participação: décimo lugar em 2006
Posição no Ranking FIBA: décimo quarto lugar
Os convocados
Pivô – Kikas (1º de Agosto – ANG)
Pivô – Abdel Boukar (1º de Agosto – ANG)
Ala-pivô – Eduardo Mingas (Atlético Petróleos Luanda – ANG)
Ala-pivô – Felizardo Ambrósio (1º de Agosto – ANG)
Ala – Vladimir Ricardino (1º de Agosto – ANG)
Ala – Leonel Paulo (Atlético Petróleos Luanda – ANG)
Ala – Olímpio Cipriano (1º de Agosto – ANG)
Ala – Carlos Almeida (1º de Agosto – ANG)
Ala-Armador – Carlos Morais (Atlético Petróleos Luanda – ANG)
Ala-Armador – Luís Costa (Atlético Petróleos Luanda – ANG)
Armador – Armando Costa (1º de Agosto – ANG)
Armador – Milton Barros (Atlético Petróleos Luanda – ANG)
Onde Angola pode chegar?
Apesar da determinação de seus jogadores, Angola não deve passar da primeira fase do torneio Olímpico, visto que a seleção africana se encontra na chave de, entre outros, Espanha, Estados Unidos e Grécia. Uma classificação entre os quatro melhores de seu grupo seria um feito memorável para o basquete local.
A caminhada de Angola
A hegemonia de Angola dentro da África é explícita pela conquista de cinco títulos continentais nos últimos cinco campeonatos disputados. A seleção venceu o Pré-Olímpico local e garantiu a única vaga africana nos Jogos.
Antes de jogar as Olimpíadas, foi campeã da Taça Stankovic, onde venceu seus rivais olímpicos da China. A vitória renovou as esperanças dos angolanos, que, apesar da técnica questionável, demonstraram grande dedicação dentro das quadras.
Destaque

Todo o jogo de Angola é baseado no ala Olímpio Cipriano, jogador do 1º de Agosto, principal equipe angolana. Ágil e habilidoso, o jogador é o principal cestinha de seu país e grande esperança de vôos maiores para o basquete angolano.
Entrevista com Wlamir Marques
Spurs Brasil – Wlamir, obrigado pelo tempo disponível, saiba que é um prazer inenarrável entrevistá-lo. Comecemos com o assunto que tomou conta do basquete nos últimos dias: a eliminação do Brasil no Pré-Olímpico Mundial. O senhor poderia dar o seu parecer sobre a campanha brasileira?
Vlamir Marques – Creio que a não classificação da seleção brasileira no Pré-Olímpico da Grécia não foi surpresa. Quem está no meio do basquete e convive com o seu dia a dia sabia disso, a surpresa seria se classificasse. Desde o momento em que houve aquela debandada de jogadores, onde foram convocados 14 atletas e só 8 aderiram ao projeto do técnico Monsalve. Sabia-se de antemão que as chances já seriam difíceis com a equipe completa, imagine com a mescla a que ela teve que ser submetida. Faltou qualidade técnica acima de tudo, não faltou vontade e nem interesse desse grupo de jogadores, mas ela careceu de jogadores de decisão e isso ficou nítido quando o imprevisto surgiu e não souberam superá-lo. Há certa parte da crônica esportiva creditando ao técnico uma nova forma de jogo, isso não bastou, porque nem isso foi mostrado nos momentos cruciais, voltamos ao antigo, ou seja, tentamos a individualidade quando não a possuímos em alto conceito. Infelizmente fomos inferiores e assim continuamos, vamos demorar muito para nos igualarmos às grandes equipes do mundo.
SB – A eliminação brasileira coloca em xeque o trabalho do técnico Moncho Monsalve?
WM – Não podemos julgar o técnico Monsalve por esse Pré-Olímpico, não houve tempo e nem motivos para criticá-lo de forma mais aberta. Não podemos dizer se ele foi bem ou foi mal, o material humano não correspondeu às suas e às nossas expectativas. Houve uma esperança que se diluiu com muita facilidade, não conseguimos ter um confronto sequer para um julgamento mais apurado do seu trabalho. Nessa seleção tudo se perdoou por ser uma seleção improvisada e sem lastro internacional, sem retrospecto, sem valores que a definissem como uma seleção realmente forte e capaz de sucessos. Ela foi tão frágil como ele, sem recursos para modificar em tão pouco tempo alguns vícios que sempre nos deixam na mão. Vamos aguardar um pouco mais, isso se ele for mantido no cargo.
SB – Se o senhor pudesse, qual seria o seu quinteto titular ideal para a seleção brasileira?
WM – Se eu pudesse, em primeiro lugar não faria nada do que foi feito. Acho que tudo foi feito de forma equivocada e não aceitaria certas imposições. Se eu não pudesse ter o LEANDRINHO, NENÊ, ANDERSON VAREJÃO, VALTINHO E O TIAGO SPLITTER, minha equipe base e muito bem preparada, com tempo de entrosamento e com submissão absoluta nos meus conceitos de jogo, eu não aceitaria ser o técnico da seleção brasileira. Nos meus conceitos pessoais ou eu estou com todos ao meu redor, com os melhores jogadores decididos à luta, ou então não contem comigo apenas pela vaidade em ser o técnico da seleção do meu país.
SB – Na época em que o senhor jogou, o Brasil atingiu feitos reconhecidos até hoje, como o bi-campeonato mundial. Qual o principal fator que o senhor enxerga como determinante para o abismo entre a sua geração e a geração atual?
WM – Fica muito difícil ou quase impossível compararmos gerações. Se eu tiver que falar do meu tempo de seleção só vou falar em dificuldades, não pensem que tudo era maravilhoso porque nunca foi. No ano de 1958 surgiu nesse país uma geração que se juntando a mim e ao Amaury, vejam bem, os mais antigos, eu com 21 anos e o Amaury com 22, formamos a base de grandes jogadores nesse país. Por ocasião de um Campeonato Sul-Americano a ser disputado em Santiago do Chile, o técnico Kanela convocou uma seleção que no ano seguinte, 1959, nove daqueles atletas foram campeões mundiais. Ali foi o marco de tudo e de todas as conquistas passadas. Éramos muito jovens e nos submetíamos a tudo, treinávamos durante quatro ou cinco meses para um mundial ou para uma Olimpíada. Fomos arrojados e fervorosos nas nossas buscas. Abandonamos família, escola, amigos, namoradas, etc., só para nos dedicarmos a um só objetivo, jogar basquete e defender o Brasil. Dá prá fazer isso hoje? Os atletas profissionais se submeterão a dormir em alojamentos de marinheiros? Em quadras de basquete onde nós afastávamos as camas para treinar e arrumávamos tudo de novo para dormir? Meus caros amigos, não acho que hoje tem que ser assim, não se justificam mais essas coisas, apenas que nós éramos felizes e sabíamos disso, nos matávamos de tanto treinar e isso fez-nos inesquecíveis, porque até hoje ninguém conseguiu fazer tanto pelo país como nós fizemos. Não dá para comparar nada. Cada época tem a sua mala para carregar, a nossa era um enorme baú.
SB – Qual era a relação dos jogadores com a direção da CBB na época que o senhor atuava pela nossa seleção?
WM – Não havia nenhum tipo de relação entre nós jogadores e a CBB que não fosse de respeito. Éramos convocados e respeitávamos a ordem, nos apresentávamos e só treinávamos, não havia nenhum tipo de litígio. Nem o dinheiro era questão a ser discutida porque nos éramos amadores e a ajuda de custo para as nossas despesas eram custeadas pelos nossos clubes. O presidente da CBB nessa época era um almirante da marinha brasileira. Foi uma figura ímpar a quem o basquete deve todas as honras. ALMIRANTE MEIRA, um grande amigo que não entendia nada de basquete, mas entendia muito de comando e de amizade. Foi muito grande a sua participação em tudo que nós conquistamos. A CBB era muito diferente de hoje, também não dá para comparar, os “homens” eram outros.
SB – Falando sobre basquete estrangeiro: qual o melhor jogador que o senhor viu atuar fora do país em toda a sua vida? Por quê?
WM – O melhor jogador de basquete que eu vi atuar em toda a minha vida é muito fácil de responder. Seria muito difícil se você me perguntasse qual foi o melhor da minha época. Aí eu cometeria muitas injustiças, porque eu vi vários melhores e joguei contra eles. O Michael Jordan é uma unanimidade mundial, não há como compará-lo com ninguém, mesmo na NBA dificilmente aparecerá outro que chegue perto da sua grande capacidade individual. Tive a oportunidade de vê-lo jogar às vésperas de ir para a NBA, nas Olimpíadas de Los Angeles em 1994, fui como comentarista da Rede Manchete, ali ele já era o craque daquele time onde todos viraram grandes estrelas da NBA.
SB – Amaury Pasos, em entrevista concedida a mim, afirmou que Oscar Schmidt foi um jogador individualista e que usou a seleção para sua autopromoção. Qual a opinião do senhor sobre Oscar?
WM – Concordo em parte com o Amaury, não em tudo. Eu fui o primeiro técnico a colocar o Oscar jogando em equipe adulta no ano de 1975, na S.E. Palmeiras, ele era juvenil. Conheço-o desde os tempos em que ele jogava em Brasília, nos Jeb´s de 1973. Ele defendia o Distrito Federal e eu era o coordenador de basquete dessa competição. O Oscar foi acima de tudo um grande profissional, coisa que a minha geração não conseguiu ser. Ele soube fazer e faz ainda muito bem o seu marketing pessoal e não o recrimino por isso. Ele usufrui disso muito bem e isso sempre gerou controvérsias ou ciúmes da sua autopromoção. A sua busca individual o levou a ser uma personalidade única e isso ela também levou para a quadra. Não recrimino a sua forma de jogar, ele é assim e assim se fez, é um grande nome mundial e isso graças a seu desempenho de arremessos da linha de três pontos. Foi um dos maiores cestinhas do basquete mundial e isso não se podem negar. O que se questiona nessa forma de jogar é a sua individualidade, quando o basquete é um esporte coletivo. Se ele jogava dessa forma é porque houve permissão dos seus técnicos para que assim ele jogasse. Uma vez eu disse no programa Bola Da Vez da ESPN Brasil que o Oscar não jogaria na seleção brasileira da nossa época. E completei dizendo que ele não jogaria dessa forma, porque com aquele 2,04 m. ele seria um pivô marcando o pivô contrário e tendo que pegar todos os rebotes de defesa, como fazia o Ubiratã, e soltar essa bola rápida para nós fazermos o contra ataque. Aí um amigo seu muito próximo, vendo o programa disse pra ele que eu havia dito que ele não jogaria na seleção brasileira na nossa época. O Oscar a partir daí cortou as relações de amizade comigo e ficamos muito tempo sem nos falarmos. Há uma grande diferença nessa avaliação, é claro que ele jogaria, soltaríamos foguetes se tivéssemos alguém como ele na nossa geração, seríamos melhores e maiores. Quem sabe seríamos tri e não bi-campeões mundiais.
SB – Oscar rejeitou propostas para atuar na NBA para continuar defendendo a seleção. O senhor recebeu alguma proposta da Liga Norte-Americana de Basquete?
WM – A FIBA (FEDERATION INTERNATIONAL OF BASKET-BALL AMATEUR) até certo tempo atrás era uma entidade que cuidava muito do basquete procurando preservar os valores amadorísticos. O basquete sempre foi considerado uma modalidade amadora e o que imperava era o amadorismo marrom. Nós todos usufruímos disso enquanto jogávamos; nada nos permitia sermos profissionais declarados, tudo era por baixo do pano. Nunca a NBA fez qualquer convite a qualquer atleta do mundo durante esse período, que eu saiba não houve, não me lembro de um caso sequer. Recebi convite para jogar nos EUA, mas para estudar e jogar, UNIVERSIDADE DE SETTON HALL-NEW JERSEY, logo após as Olimpíadas de Melbourne em 1956. Não fui, nem pensei em sair do Brasil, era muito jovem, 19 anos, senti medo porque na época isso era uma aventura para mim. Antes eu havia recebido convites para jogar na Argentina, também recusado por mim. Nas Olimpíadas de Roma em 1960 eu e o Amaury recebemos convite para jogarmos na Europa. Eu já estava casado e com filhos, jamais pensei nisso. Também a proposta não era coisa para pensar em independência financeira, elas por elas eu preferia ficar aqui mesmo no Brasil.
SB – Quais relações o senhor ainda mantém com o basquete?
WM – Eu nasci em 1937 e comecei no basquete em 1948, quando o Brasil foi medalha de bronze nas Olimpíadas de Londres. Então eu tinha 11 anos e agora estou com 71, posso dizer que estou no basquete há 60 anos. Desde 1948 nunca mais me afastei do basquete e acho que vou morrer com ele nas minhas entranhas. Hoje sou professor da cadeira de basquete da FEFISA (FACULDADE DE EDUCAÇÃO FISICA DE SANTO ANDRÉ) faz 34 anos. Atualmente também sou comentarista de basquete da ESPN Brasil desde 2001. Tudo que eu fiz na minha vida sempre foi com algo ligado ao basquete, nunca me afastei das quadras, acho que ela sempre me recebeu muito bem e será lá o meu fim também.
SB – Voltando à seleção brasileira: há salvação para o calvário que nosso basquete se encontra?
WM – Confesso a você que o nosso basquete não está em um calvário como você afirma. Não sou tão negativista assim, não estamos nem melhor e nem pior do que ninguém; estão todos iguais. Não podemos tirar as nossas conclusões por um Pré-Olímpico onde a nossa força não se fez presente em toda a sua plenitude. O que acontece é que sermos campeões Sulamericanos ou Pan-americanos já não nos basta mais. Queremos ser novamente campeões mundiais ou medalhistas olímpicos, e isso está muito longe de conseguirmos novamente, não somente por nós , mas pela evolução que a modalidade tomou em todo mundo, onde as forças são muito maiores e o equilíbrio nos tira qualquer vantagem que outrora já tivemos. Estamos mal internamente, estamos cometendo falhas inadmissíveis, as vaidades e os desmandos estão minando as nossas forças, mas me parece que agora estamos vendo alguns acertos que poderão nos tirar desse marasmo em que nos encontramos. A criação de uma Liga Nacional já é o começo da nossa evolução interna, embora isso não seja o suficiente para as grandes conquistas internacionais. Melhorando internamente há uma grande chance de melhorarmos tudo, essa é a nossa esperança, desde que os homens de comando sejam os homens certos para isso.
SB – O senhor poderia eleger seu “time do sonhos” de todos os tempos do basquete?
WM – Não vou colocar os brasileiros nesse sonho, apenas os estrangeiros que eu vi jogar. Vamos lá: MICHAEL JORDAN, KOBE BRYANT, BILL RUSSELL, JERRY LUCAS, JERRY WEST e como o sexto homem o OSCAR ROBERTSON. É claro que haverá discórdia, cada um tem a sua visão e a sua opinião e é difícil apontar apenas cinco.
SB – Como e quando o senhor decidiu se tornar jogador de basquete?
WM – Comecei a jogar basquete em São Vicente, São Paulo, no C.R. Tumiarú. Quando iniciei os primeiros passos no basquete eu competia em natação, jogava vôlei, fazia atletismo e jogava futebol no gol. Era garoto e praticava tudo ao mesmo tempo. Um dia tive um problema de dilatação do coração e o médico recomendou a minha mãe que eu praticasse menos esporte. Foi quando já com 13 anos eu resolvi só jogar basquete, até porque no fundo da minha casa estava uma quadra de basquete do meu clube. Pulei o muro e nunca mais saí da quadra, até hoje. A partir daí, muito cedo fui convocado para a seleção paulista juvenil, e com 16 anos já estava na seleção brasileira de adultos. Bem, daí começou uma carreira que não parou mais. Esse é o começo da minha história. Fui um garoto muito feliz na minha querida São Vicente e no meu inesquecível Tumiarú.
SB – Qual motivação o senhor vê para explicar o fato de o basquete ter diminuído seu apreço popular no Brasil?
WM – O basquete brasileiro começou a perder o seu encanto no Brasil a partir do momento em que as grandes conquistas internacionais cessaram e outras não tiveram continuidade. Com isso perdemos a mídia televisiva aberta e a garantia de bons espetáculos pela falta de grandes jogadores no nosso país. As estrelas foram se apagando e a chama foi diminuindo, até que chegou aonde chegou. Faltam-nos também grandes equipes de apelo popular, tal como o Corinthians, Palmeiras, Vasco, Botafogo, Fluminense, Flamengo, Santos, Internacional, São Paulo, possuírem grandes elencos e participarem ativamente dos campeonatos nacionais. Já possuímos isso no Brasil, mas com a falência dos clubes de grande chamada popular o basquete foi sacrificado e ficou apenas o futebol como carro chefe. Embora tenhamos no Rio um Flamengo que não abdica da sua participação no basquete nacional. Falta-nos um melhor campeonato interno no país, de nível nacional, para não termos que ficar apenas com o maravilhoso Campeonato Paulista. Acho que isso já estamos conseguindo, há uma Liga Nacional em vias de concretização. É claro que outros motivos provocaram essa queda de apreço popular, mas essa entrevista é muito pequena para apontar tudo que aconteceu ou que acontece no nosso basquete brasileiro.
SB – Atualmente, pagam-se salários exorbitantes para jogadores de pouca técnica ou habilidade. Os altos salários e as novas formas de marketing associadas ao basquete prejudicam a identificação dos atletas com suas respectivas seleções?
WM – Sobre os salários altíssimos pagos aos jogadores de basquete ou no esporte em geral, são provenientes de recursos auferidos com as suas presenças nas praças esportivas. Sabemos que existem salários e salários, nem todos contemplam a verdadeira qualidade do atleta. Alguns salários fogem realmente da nossa realidade, mas tem gente que paga e isso ninguém pode ser contra, é benéfico ao atleta e prejudicial ao empregador, não se pode evitar essas discrepâncias. O fato dos atletas negarem-se a representar os seus países por questões financeiras, custa-me acreditar que isso possa existir aqui no nosso país. Os jogadores da NBA são o resultado de um grande investimento e isso tem que ser preservado, é a vida pessoal que está em jogo e devem respeito aos seus donos, nessa hora não existe o antipatriota, existe apenas o profissional e isso não se discute. O marketing apenas faz parte de uma grande arrecadação financeira, o resto é de foro íntimo de cada um.
SB – Qual a lição mais importante que o basquete ensinou para o homem Wlamir Marques?
Não somente com o basquete, mas lidar com o esporte aprendi lições incríveis. Ser respeitador dos meus superiores, ser participativo, ser disciplinado, ser humilde, ser simples e altamente sincero nos meus objetivos, ser colega e conselheiro, ser atleta e conhecer os meus deveres e obrigações, reconhecer os meus erros, valorizar o adversário, enfim, aprendi muita coisa que me levou a utilizá-las até hoje na minha vida e no meu cotidiano. Tudo que eu aprendi no passado trouxe para o presente, isso me fez uma pessoa melhor e mais contemplativa com a vida. O esporte é uma grande escola, ali aprendemos de tudo. Cursamos o Fundamental, o Médio, a Universidade, Pós Graduação, Mestrado e Doutorado, as aulas são maravilhosas e os professores não reprovam, apenas aconselham.
SB – Qual o maior exemplo de organização competitiva para o basquete brasileiro: a NBA ou as Ligas Européias?
WM – A NBA é um grande exemplo de marketing e de organização, é inigualável no que se propõe, não há nada semelhante no mundo, seja em qualquer modalidade esportiva, mas não é o basquete da FIBA e isso fica ali como coisa apenas deles, regras deles, jogadores deles, marketing deles e assim são os EUA, são coisas que dão certo e eles sabem fazer isso muito bem. Na Europa é mais próximo de nós e das nossas estruturas, na forma de jogar e de organizar os torneios. A FIBA é um órgão mundial e as suas regras regem o basquete mundial e europeu. Sendo assim eu vejo que estamos mais próximos do velho mundo, embora alguns exemplos da NBA possam ser imitados. Estamos mais próximos da FIBA, a NBA prá nós é uma utopia.
SB – Qual a relação entre Wlamir e Amaury dentro e fora das quadras de acordo com a sua percepção?
WM – A nossa relação é a melhor possível, somos amigos desde os nossos 17 ou 18 anos de idade. Sempre nos demos muito bem e sempre houve um sentimento de respeito muito grande entre nós. Fomos companheiros de quarto em todas as nossas participações e isso nos deu um lastro de confidências muito próprias para as nossas evoluções de vida. Não nos vemos muito, mas nos falamos sempre pelo telefone, afinal nessa cidade de São Paulo, assim como qualquer cidade grande, fica difícil o deslocamento conforme a idade vai aumentado, me parece que as distâncias vão aumentando. Agradeço muito ao Amaury por ter me ajudado a ser o que sou, é um grande amigo e sei que nós podemos confiar um no outro. Foi o melhor jogador brasileiro que eu vi jogar até hoje. Essa é uma grande história.
SBO senhor aceitaria o cargo de presidente da CBB atualmente? Por quê?
WM – Se eu disser que aceito o cargo de presidente da CBB seria para me candidatar imediatamente, mas não vejo isso como meta na minha cabeça. Estou com 71 anos de idade e estou mais para encerrar a minha carreira na praia do que ficar aparando arestas dos incompreendidos e dos vaidosos dirigentes do esporte brasileiro. Não sirvo pra ser corrupto e nem para ser corrompido, não faço parte de maracutaias e nem de desmandos vaidosos, sou livre para fazer e falar o que quiser, não servirei jamais para acordos maquiavélicos e egoistas. Sei que capacidade não me falta, sei tudo o que acontece no basquete brasileiro, até das coisas que não são mostradas publicamente, por isso e por muito mais coisas que eu não me atrevo a ser o presidente de nada, sou muito honesto para ser o presidente de alguma coisa nesse país.
SB – Qual sua maior frustração como jogador de basquete?
WM – A minha maior frustração foi como jogador de basquete no ano de 1972. Fui convidado pelo técnico Kanela para ser o seu assistente técnico e jogador nas Olimpíadas de Munique. Cheguei a participar dos primeiros treinamentos, ajudei na preparação por certo tempo, mas depois eu desisti. Nessa época estava no segundo ano da faculdade de educação física (FEFISA) e fiquei com receios de perder o ano caso me ausentasse por um longo período. Então pedi ao Kanela a minha dispensa e ele, entendendo a minha situação, aceitou o pedido. Hoje eu imagino que não perderia o ano de forma nenhuma, tinha até garantias governamentais para o meu afastamento da faculdade, mas na época não pensei nisso. A frustração é que com as Olimpíadas de Munique eu faria cinco Olimpíadas como atleta e deixei escapar o que seria pra mim uma grande honra. Participei das Olimpíadas de Melbourne-1956, Roma-1960, Tókio-1964, México-1968. No ano de 1964 fui escolhido pelo COB para ser o porta-bandeira da delegação brasileira em Tókio.
SB – Como o homem Wlamir enxerga o jogador Wlamir?
WM – O Wlamir foi quando jovem um garoto muito feliz. Garoto de praia e de muito sol, sempre correndo atrás de uma bola e da água também, pois a natação foi o seu primeiro esporte como praticante. Muito cedo foi convocado para a seleção brasileira de adultos e com 17 anos foi vice-campeão mundial, com 22 foi campeão mundial, com 23 foi medalha de bronze em Roma, com 26 foi bi campeão mundial, com 27 foi outra vez medalha de bronze e com 33 voltou a ser vice-campeão mundial. Jogou até o ano de 1974 quando foi técnico e professor de educação física. Confesso que como homem viveu grande parte alienado de uma vida comum e normal, isso motivado por uma vida de treinamentos e viagens que o afastavam constantemente do convívio com a sua família. Sempre acreditou que com isso garantia por algum tempo o sustento da sua família. Acho o Wlamir um bom amigo, eu confio nele, é às vezes crianção, mas é por excesso de felicidades, ele é uma cara muito feliz com a vida e com o que DEUS lhe deu.
