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Rumores – Spurs tem interesse em Sam Cassell

Segundo a publicação americana Boston Globe, Sam Cassell disse que espera retornar a Boston, mas uma fonte próxima afirma que San Antonio Spurs, Houston Rockets e Dallas Mavericks também têm interesse em contar com o veterano armador.
O agente Mark Bartelstein afirma que o Celtics também tem interesse na permanência de Eddie House, mas que outras equipes também têm interesse no jogador.
Interativo – George Hill
Caros leitores, a escolha do armador George Hill pelo o Spurs pegou todos de surpresa. Então, após a surpreendente escolha, fomos atrás de informações sobre este jogador e ai vai alguns vídeos com jogadas de Hill em sua equipe da Universidade de Indiana, IUPUI Jaguars.
OBS – Ele é o jogador com a camisa número 3.
Entrevista – Valdir Barbanti – Parte II
Excepcionalmente hoje, o Passando a Limpo será um pouco diferente. Eu sei que eu havia prometido a última parte da entrevista para segunda-feira, mas uma pequena mudança fez com que ela precisasse ser postada hoje. Então, o Passando a Limpo deste domingo será a segunda parte desta interessante entrevista com Valdir Barbanti, ex-preparador físico da seleção masculina de basquete.
Se você perdeu a primeira parte desta entrevista, clique aqui e confira!
Spurs Brasil – Em 92, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, vocês enfrentaram talvez aquela que foi a melhor seleção de todos os tempos nos esportes coletivos. Como foi essa experiência de ter enfrentado Michael Jordan, Larry Bird, Magic Johnson?
Valdir Barbanti – Esse pessoal todo que jogou nos Estados Unidos, era o pessoal que a gente admirava, eram os ídolos dos nossos jogadores. Uma vez o Oscar falou assim: “Quase que eu entrei na quadra com um caderninho e um lápis na mão pra pedir autógrafo”. Quer dizer, o respeito era muito grande, porque era as vedetes do esporte mundial, eram os grandes nomes, e o nosso pessoal tinha esses jogadores como grandes ídolos. Então, foi uma coisa interessante, foi legal jogar contra esses caras. Claro que eles eram extremamente superiores a nós, mas, de qualquer forma, a honra de jogar com os caras que a gente admira, que a gente tem como ídolo é uma coisa fabulosa. Então, claro, ninguém entrou achando que ia derrotar aquele time, porque ele era imbatível, mas por outro lado, entrou pra fazer o melhor e oferecer a maior resistência possível. Mas eram 12 jogadores que eram os melhores do mundo, e não tinha jeito de ganhar deles, e ninguém iria ganhar daquele time, nem a seleção do resto do mundo acho que ganharia daquele time. Foi pra nós uma honra, foi uma coisa como eu falei, uma coisa de entusiasmar e, de uma certa forma, honrados de poder jogar contra aqueles que a gente achava que era os melhores do mundo e que a gente tinha admiração. Quer dizer, a vontade era essa mesmo, eu queria a camisa deles pra guardar de recordação, queria um autógrafo, porque caramba, são os melhores do mundo, que bacana a gente jogar contra eles Agora, eu acho que aquele time era imbatível, porque eram 12 jogadores de altíssimo nível, e a gente ficava maravilhado com o que eles faziam na quadra. E contra nós não foi diferente, eles deram um show, como deram um show contra todo mundo.
SB – Você teve oportunidade de ver como era o relacionamento das grandes estrelas americanas?
VB – Não. Eles ficavam em hotéis separados, eles não ficavam nem na Vila Olímpica, então a gente nunca teve contato, porque eles ficavam em lugar separado. Então, nunca tive chance de saber como eles se relacionavam, como eles eram.
SB – A preparação física do basquete brasileiro evoluiu muito desde a época que você fazia parte da equipe e em que aspectos ela ainda deixa a desejar?
VB – Eu acho que ela evoluiu bastante, mas não evoluiu tanto do ponto de vista técnico, mas evoluiu no sentido de aceitação da preparação física. Desde 87, quando nós ganhamos o Pan-americano, ficou evidente que um time bem preparado ele enfrenta qualquer um do mundo, e nosso time mostrou isso porque tava muito bem preparado fisicamente. A partir de então, quase todo clube, mesmo as categorias de base, juvenil, infanto, infantil começaram a valorizar a preparação física, de saber que isso é uma parte importante do processo do basquetebol. Eu dei muitas clínicas logo depois do Pan-americano tentando colocar o valor da preparação física, o quanto isso ajuda no jogo. Então, acho que mudou muito e mudou pra melhor. Agora, eu acho que não evoluiu tanto, hoje a questão é mais técnica, é preciso mudar alguns paradigmas que eu vejo que está um pouquinho exagerado, por exemplo, na década de 90, com o advento da musculação, com a popularidade da musculação, essa cultura foi levada também para o esporte. Eu acho que isso é foi coisa muito ruim porque, não que a musculação não seja boa, mas muitos esportes ainda acham que toda preparação só deve ser feita em função da musculação, o que tá errado. Então, hoje eu acho que é um paradigma que eu acho que precisa ser discutido, porque preparação física não é só fazer musculação, não é só trabalhar força, precisa de outros componentes também. Então, acredito que hoje está meio estagnado, está faltando melhorar e discutir o paradigma. Mas evoluiu bastante perto do que era naquela época e perto do que é hoje. Hoje tem preparação física, é parte importante, é aceitável e todo mundo sabe que precisa dela, mas agora tá precisando um pouquinho a mais de um processo pra torná-la um pouco mais eficiente.
SB – Você acredita que nossa seleção atual não chega em quadra ao potencial que ela tem no papel? Porque?
VB – Acho que falta preparação, falta treinamento, falta reunir o grupo e se preparar, porque qualidade os jogadores têm. São alguns jogando na NBA, vários jogando na Europa, não é possível que um time desse não tenha qualidade para ser um dos melhores do mundo. Agora, lamentavelmente, eu acho que não tem sido dado a atenção para uma preparação apropriada, não pode reunir os jogadores 15 dias antes de um campeonato mundial, antes de um pré-olímpico pra treinar, por que 15 dias, um mês que seja, é muito pouco, então acredito que o que falta hoje é essa capacidade de reunir o grupo. Talvez seja até impossibilidade, porque cada um joga em um lugar e são profissionais, mas se reunir esse grupo e treinar de maneira desejada não vejo como este grupo não possa estar entre os melhores do mundo. Falta é planejamento, treinamento e reunir o grupo pra treinar.
SB – Você é a favor da escolha de um técnico estrangeiro na seleção masculina?
VB – Olha… Eu não, eu sou muito nacionalista, eu acho que o Brasil tem técnicos capacitados, competentes, que podem dar conta do recado. Quando acontecem muitas desavenças, muitos desacordos, a presença de um estrangeiro eu vejo como útil, porque não está havendo um impedimento nacional para que possa ser gente daqui. Mas o Brasil até hoje teve sempre bons treinadores, de forma que acredito que ainda existam bons treinadores. Agora, às vezes é importante uma renovação, ou vindo gente de fora pra mudar um pouco essa característica, mas eu ainda acredito que o Brasil tem treinadores muito competentes pra poder fazer o mesmo trabalho. E, além do mais, conhecer os jogadores brasileiros como os treinadores brasileiros acho que ninguém conhece, mesmo os que jogam lá fora, os treinadores brasileiros conhecem muito bem esses jogadores, o que facilitaria bem o processo. E trabalhar também com brasileiro depende de cultura, a nossa cultura é diferente. Então, acho que isso favorece pra seleção que tenha um treinador nacional e não vindo do estrangeiro. Treinar uma equipe também envolve um aspecto cultural, e nem sempre um estrangeiro conhece bem a cultura nossa pra se dar bem. Tem muitos treinadores que não se dão bem aqui, depende muito da cultura nossa, que tem que ser bem conhecida. Mas eu sou favorável a usar um treinador nacional, porque eu acredito que aqui tem gente competente pra ser treinador da seleção.
SB – Você acredita na classificação da seleção masculina para as olimpíadas de Pequim?
VB – Não. Eu acredito no potencial, acho que essa seleção tem potencial pra ir para os Jogos Olímpicos, mas, de qualquer forma, se esse grupo não for preparado, se esse grupo não treinar com tempo suficiente, eu não acredito. Agora, é um grupo de potencial bom. Se fizer isso, eu acredito que pode se classificar.
SB – Nas últimas partidas da seleção, com os problemas de Nenê e Anderson Varejão, Tiago Splitter foi o titular do garrafão. Você conhece o jogo dele? Você acredita que ele pode dar certo na NBA?
VB – Ah, eu conheço, ele já tem experiência, jogou na Europa, eu acho que é um excelente jogador. O problema é que a seleção não teve oportunidade, talvez, de ter o tempo necessário pra treinar essas grandes estrelas, porque é preciso ter maior entrosamento entre eles, e isso é tempo de treino e tempo de treino junto, porque cada um joga em um clube, então eles não têm entrosamento. O Nenê joga no Denver, o Leandrinho joga no Phoenix, um outro joga em outro estado, outro joga na Europa, é diferente. Pra entrosar esse pessoal, tem que reuni-lo e treinar junto, fazer as jogadas junto e como eles não tiveram oportunidade de fazer isso. É a grande dificuldade que a seleção tem. Reúne-se com muito pouco tempo para esse entrosamento ficar bom. Mas, de todos esses aí, mesmo os que não são da NBA, eu acho que são excelentes jogadores. O Guilherme não está na NBA, ele joga na Europa, mas é um excelente jogador. Eu acho que daria muito certo pra qualquer um deles estar na NBA, como está dando certo para o Leandrinho, que é um craque, para o Nenê, que é um cara considerado pra caramba, o próprio Tiago, acho que ele vai se dar bem, acho que ele tem tudo para se dar bem, dependendo das chances que ele tiver de jogar na NBA e dependendo da equipe que ele for, mas eu acho que o próprio Alex, que está jogando na Europa, o Alex disputou aí agora a final do campeonato europeu, você imagina a experiência que esses caras têm. Agora, eles são jogadores jogando em um time que jogam de outra maneira, quando eles vêm pra seleção, eles tem que treinar da maneira que o treinador quer, e entrosar com esses caras que estão cada um em um lugar, alguns até se conhecem, mas não têm jogado mais juntos. Eu acho que o Brasil tem 12 jogadores que qualquer um poderia ir para a NBA e se dar bem, o problema é que eles não tão dando certo na seleção por falta de tempo de entrosamento, de treinamento, eu acho que é muito pouco tempo. Esse grupo tem se reunido com muito pouco tempo para treinar, e eu acho que seleção nenhuma, salvo raras exceções como os caras craques da NBA, que podem se reunir com duas semanas e são tão superiores aos demais que acaba com duas semanas ou três de treinamento dão certo, mas não é o caso nosso. Nós precisaríamos de mais tempo pra entrosar os jogadores, mas não duvido que os 12 jogadores da seleção teriam lugar pra jogar na NBA, nos vários clubes da NBA.
SB – Você acompanha a NBA atualmente? Qual a sua equipe preferida e o jogador?
VB 0 Olha, eu acompanho de uma maneira de acompanhar todos os jogos e ficar seguindo, mas os playoffs eu gosto de acompanhar, porque nos playoffs você tem chance de ver as equipes que são melhores classificadas, então aí tem jogo de alto nível. Eu to acompanhando os playoffs ai e vejo alguns jogos. Eu gosto de várias equipes, eu gosto muito das equipes tradicionais dos Estados Unidos, que já tem certa tradição no basquetebol. Eu gosto muito do Boston Celtics, porque tem tradição, embora tenha passado por um mal momento recentemente. Eu sempre gostei do Chicago Bulls, embora no momento também não tem a equipe que teve nos anos 90. Enfim, não tem uma equipe predileta, eu gosto de ver o bom jogo, eu gosto de ver aquele jogo de show, aquele jogo que é decidido no finzinho, que é bem disputado. Eu gosto de ver os grandes lances e os grandes jogadores. Eu gosto de ver o Lakers jogar, o Lakers sempre teve uma tradição de bom basquetebol, desde de épocas anteriores. No Lakers, antigamente, jogava um cara chamado Kareem Abdul-Jabbar, que foi um excelente jogador, um craque, depois Magic Jonhson, hoje tem um cara que eu adoro ver, o Kobe Bryant. Então, eu não tenho um time predileto, eu tenho jogadores que eu gosto de ver, os jogadores fantásticos, e eu gosto de assistir bons jogos, não importa muito quem ganha ou quem perde, eu não tenho um time que eu sou apaixonado, eu gosto de assistir o basquete de alto nível, com equipes que sejam bastante equilibradas, de ver bons jogadores.
Essa foi nossa primeira entrevista aqui no Spurs Brasil. Queria agradecer o Valdir Barbanti, que nos atendeu com muito carinho, contando um pouco de sua experiência como membro da comissão técnica da seleção, e gostaria de saber de vocês leitores o que acharam. Deixem suas dicas, sugestões ou críticas nos comentários. Sua participação é importante para sempre buscarmos o melhor.
Obrigado.
Entrevista – Valdir Barbanti – Parte I
Hoje estréia nossa sessão de entrevistas no Spurs Brasil. E nosso primeiro entrevistado foi Valdir José Barbanti, preparador físico da seleção brasileira masculina de basquete durante o final dos anos 80 e parte dos anos 90. Barbanti fazia parte da comissão técnica da histórica seleção do Pan de 87, que conquistou a medalha de ouro com vitória em cima dos americanos, mesmo jogando nos Estados Unidos. Ele também estava nos Jogos Olímpicos de Barcelona quando os brasileiros enfrentaram o Dream Team. Nesta entrevista, ele nos conta um pouco de sua experiência na seleção e sobre o convívio com os jogadores da época. Hoje, Barbanti é professor universitário e ministra aulas na Universidade de São Paulo (USP).
Devido à grande extensão da entrevista, ela será dividida em duas partes, a primeira hoje contando um pouco do Pan de 87 e da convivência com jogadores como Oscar, Marcel e outros. A segunda parte sairá na segunda-feira, com as histórias de Barcelona-92 e falando um pouco da situação atual. Então, não percam!
Spurs Brasil – Durante que período o senhor fez parte da comissão técnica da seleção e como foi trabalhar com a elite do esporte?
Valdir Barbanti – Eu tive uma oportunidade de trabalhar com basquete em um clube e por causa desse trabalho no clube eu acabei convidado pra trabalhar com a seleção. Isso foi em 1987, logo após o Campeonato do Mundo que o Brasil havia ficado em quarto lugar na Espanha, e em 87 eu comecei a trabalhar com a seleção. Foi uma experiência bacana, o Brasil vivia na época uma situação de bons jogadores, alguns até excelentes jogadores, mas um grupo muito legal de ser trabalhado porque era um pessoal primeiro apaixonado pelo basquete, segundo um pessoal que era vencedor, que estava muito afim, então foi muito bom. Logo nesse primeiro ano, em 87, já ganhamos o campeonato Pan-americano, depois em 88, com esse mesmo grupo, ganhamos o pré-olímpico para os Jogos Olímpicos de Seoul. Eu continuei com esse grupo em 89, 90 no Campeonato Mundial, que foi aqui na Argentina. Fomos quinto colocados. Achei uma grande classificação, porque era a época de Estados Unidos, União Soviética, Iugoslávia e o Brasil tinha uma grande seleção também. Em 91 fomos para os jogos Pan-americanos em Cuba e o Brasil foi terceiro, medalha de bronze, com grandes chances de termos ganho de novo, mas não foi o mesmo sucesso de quatro anos antes. Em 92 classificamos de novo no pré-olímpico para os Jogos Olímpicos de Barcelona, e eu fiquei até 93 com a seleção. Então foi uma experiência agradável, essa geração toda foi uma geração vencedora de grandes jogadores, e fui muito bem sucedido, e tive muito boa receptividade dos jogadores com um tipo de trabalho que eles não estavam acostumados a fazer. A preparação física era uma coisa que estava começando no basquete, não era tão importante como é hoje, naquela época estava começando. Mas como nós tivemos bastante sucesso, foi muito fácil pra eles aceitarem essa preparação física, porque estava refletindo na quadra o sucesso, então eu achei que o grupo recebeu muito bem esse tipo de trabalho. Depois eu tive uma parada de vários anos, e em 97 voltei de novo para a seleção, fui chamado de novo para trabalhar e fiquei só mais dois anos, e depois, por motivos de trabalho aqui na USP, não teve mais como continuar. Mas foi uma grande experiência trabalhar com o alto nível, principalmente porque o alto nível hoje é muito exigente e hoje tem uma parte econômica que se sobressai, hoje o pessoal ganha muito dinheiro com isso, e o jogador tem plena consciência disso, e isso é fácil porque o trabalho nosso fica facilitado quando tem essa apelação do alto nível.
SB – A seleção de 87 foi um marco no basquete brasileiro. Como foi pra você fazer parte deste momento histórico?
VB – Olha, não foi um marco só para o basquete brasileiro, foi um marco por exemplo para o basquete americano, porque o próprio Estados Unidos nunca havia perdido um jogo de seleção dentro dos Estados Unidos, ao sofrer aquela derrota para o Brasil mudou o conceito de jogo deles. Por exemplo, eles não tinham bons arremessadores da linha dos 3 pontos. E a partir de então, mudou um pouco o basquete norte-americano, eles viram que eles precisavam de gente também porque nossos jogadores, não só o Oscar que era o maior jogador do time, mas o Marcel, Paulinho Villas Boas, os armadores, todos eram bons arremessadores dos três pontos. Então acabou sendo um marco até para o basquete dos Estados Unidos. Pra mim foi muito bom porque foi um momento de glória do basquete nacional, ganhar do time americano dentro dos Estados Unidos nunca havia acontecido na história do basquetebol. Então foi uma coisa muito grandiosa, eu tenho hoje os recortes de jornais americanos, o “The New York Times”, que é um dos jornais mais conceituados dos Estados Unidos, apareceu a foto da equipe nossa na primeira página, falando do nosso basquete ganhando dos Estados Unidos. Foi uma coisa emocionante e ao mesmo tempo, para nós que somos da profissão e estamos dentro do esporte, uma coisa espetacular, indescritível porque não foi só um marco, mas foi uma coisa determinante mesmo, de chocar o Estados Unidos, de trazer um reflexo muito grande, de mudar a estrutura toda do basquetebol.
SB – Porque que um momento tão propício para o crescimento do basquete não foi aproveitado?
VB – Eu penso que o Brasil ainda é muito amador no tratamento das questões nossas, principalmente no esporte. O Esporte carece de profissionais competentes para dirigir, administrar, pra gerenciar. E isso daí é uma questão que foge, por exemplo, da direção técnica. Foi mal utilizada porque as pessoas não são profissionais, e isso que esta faltando no esporte, o senso de profissionalismo. Durante vários anos, o Brasil teve a hegemonia da América do Sul, eu já joguei mais de 20 vezes contra a Argentina e nunca perdi um jogo, e hoje a Argentina é uma potência mundial no basquete e nós não somos nada, quer dizer, não se aproveitou o grande momento da maneira adequada, e eu acho que isso daí é falta de profissionalismo, ou seja, quem dirige confederação, quem dirige federações, ligas, quem são os dirigentes do esporte não têm a formação adequada para aproveitar esses momentos de fazer um esporte se desenvolver na sociedade, e isso daí é o típico caso que aconteceu. O basquete estava no auge, o basquete se destacava no mundo e não teve um aproveitamento no nosso país por falta de conhecimento, de capacidade e de competência de dirigir.
SB – Como era a convivência dos jogadores na seleção?
VB – Excelente, excelente. A seleção é um grupo de pessoas que são extremamente unidas, pelo menos no meu tempo, no meu grupo as pessoas são extremamente amigas, as pessoas se suportam. O tempo todo que eu estive na seleção eu nunca percebi grupos isolados, alguém que quer ser mais do que outro. Tem as lideranças naturais, mas isso é liderança, não isolamento, não pessoas que são auto-suficientes. Esses grupos que eu tive oportunidade de conviver sempre foram como uma família, nunca foi grupo rachado, nunca foi grupo que tinha as vedetes, nunca foi ninguém querendo ser mais estrela que o outro. Então tinham as lideranças naturais, o Oscar, o Marcel eram líderes naturais da equipe, mas era uma equipe unida, a convivência era fabulosa, sentava na mesa pra jantar junto, almoçar junto, tomar café junto, viajava junto, não tinha nenhuma separação, ninguém era mais vedete do que o outro. Foi um grupo muito legal de trabalhar, pelo menos nesse aspecto eu acho que a equipe da seleção sempre deu exemplo de união, que é o que eu acho que falta muitas vezes em outras ocasiões, mas nesse tempo que eu trabalhei com eles eu nunca percebi nenhum ambiente de discórdia, ou de divisão, ou de racha entre os jogadores.
SB – Há quem diga que o Oscar não foi para a NBA para não desfalcar a seleção, há também quem diga que isso é invenção do “Mão Santa” e que os motivos seriam outros. Você sabe algo a respeito disso?
VB – Olha… Eu nunca perguntei isso pra ele e nunca ouvi da boca dele resposta pra isso daí. Mas eu penso que ele não foi NBA por vários motivos, e não por um só. Primeiro porque onde ele jogava, na Itália, ele jogou muitos anos na Itália, ele era um astro, foi todos os anos cestinha do campeonato italiano, então é um papel relevante que ele tinha no campeonato italiano. Depois, ele parou de jogar na Itália e foi para a Espanha, e virou cestinha do campeonato espanhol durante vários anos. Então, ele sempre foi um jogador de destaque na Europa, e porque que ele iria pra NBA que ele seria só mais um entre tantos destaques que tem? Segundo, você vai falar que na NBA pagasse muito mais do que ele poderia ganhar na Europa, e eu acho verdade, mas eu acho que o Oscar nunca fez questão muito de dinheiro, ele jogava porque ele gostava, e como ele sempre disse, ainda era pago pra fazer aquilo que ele gostava. E outra, ele sempre teve orgulho de defender a seleção, eu acho que também é um dos motivos, agora eu não acredito que tenha sido um motivo só. O fato dele ter sido estrela na Itália, depois na Espanha, o fato dele ganhar muito bem na Europa, o fato dele jogar há bastante tempo nesses países, tudo isso deve ter pesado na balança, e além de tudo, o fato de ele indo pra NBA ele perderia o status pra jogar na nossa seleção naquela época, e ele não queria deixar de jogar na seleção, porque ele sempre gostou de vestir a camisa da seleção. Então, eu não penso que foi uma causa só, foram vários motivos, mas isso é a minha percepção, eu nunca ouvi nada da boca do Oscar sobre isso.
SB – Qual seria o impacto do Oscar caso ele jogasse na NBA? Ele teria basquete para também ser destaque nos Estados Unidos?
VB – Eu não tenho dúvidas. O basquete que o Oscar jogava era pra ser destaque em qualquer campeonato, mesmo na NBA, que tem muito mais vedetes, muito mais craques. Mas o Oscar era um cara inédito, os próprios jogadores da NBA consideravam o Oscar um dos melhores jogadores do mundo, tanto é que em Barcelona, que a nossa seleção jogou contra os Estados Unidos, que era o Dream Team, aquele time fantástico com Magic Johnson, Michael Jordan, aquele pessoal todo fabuloso, o pessoal tinha o maior respeito pelo Oscar. Nós perdemos, claro, os Estados Unidos tinha aquela seleção fantástica, mas o pessoal sabia que se o Oscar ficar livre ele mete bola, porque os caras tinham o maior respeito pelo Oscar. Acabou a partida, todo mundo foi cumprimentar o Oscar, porque ele foi o cestinha do jogo, e você sabe, é difícil marcar o Oscar, ele era um cara fabuloso. O respeito que ele tinha era muito considerado pelos jogadores da NBA. Eu acho que ele seria um craque na NBA também, só que claro, na NBA ele não seria o único craque, teria muitos outros bons jogadores lá. Mas que ele teria destaque, ninguém me tira da cabeça, porque o Oscar foi um dos melhores do mundo na época, sem dúvida.
SB – Naquele Pan-americano de 87 vocês enfrentaram a seleção americana, que não contava com os jogadores da NBA, mas tinha excelentes jogadores, e entre eles, um que foi um dos melhores da NBA, o David Robinson. Vocês já sabiam do potencial daqueles jogadores e como foi enfrentá-los?
VB – Bom… na verdade eles não era caras da NBA, mas eram os melhores que tinha no College, do College que faz o draft pra NBA, então como eles estavam ali, ali tava o que tinha de melhor, e que todos eles iriam pra NBA, então a gente sabia que estava enfrentando os melhores do mundo. Eles achavam, muito mais do que nós, que eles ganhariam fácil, porque eles estavam ali com os melhores jogadores do College, que seriam os próximos que iriam pra NBA, mas nós tínhamos confiança que o nosso time estava bem treinado. Nos jogos que nós fizemos anteriores ao Estados Unidos, todos os jogos nós ganhamos e ganhamos com muita propriedade, de forma que nós achávamos que eles não eram invencíveis. Eles eram uma grande equipe, eles eram muito bons, mas não eram invencíveis, tanto é que provamos que eles não eram mesmo e que nós ganhamos. Mas sabíamos da qualidade desse time, respeitávamos o time e sabíamos que era difícil ganhar deles lá dentro, com aquela torcida toda, mas como eu falei, o pessoal acreditava que se jogasse aquilo que o nosso time jogava e o potencial que nosso time permitia nós poderíamos ganhar o jogo, e foi o que aconteceu. Então, acho que foi uma confiança muito grande de estar bem treinado, e ninguém tremeu porque ia jogar com grandes jogadores que iam estar na NBA. A atitude foi muito positiva por parte do time, então todo mundo coincidentemente jogou bem, e que o jogo se ganha na hora do jogo, e não de nome só.
Do céu ao inferno

Hoje estréia a última das novas colunas do blog Spurs Brasil, que será chamada “Passando a limpo” e sairá todos os domingos escrita por mim, Victor Moraes (aliás, como eu estou estranho nessa foto da barrinha, vou providenciar outra urgente! hahahaha), e meus companheiros de blog Glauber da Rocha e Robson “Koba”. Ela terá como conteúdo os assuntos mais importantes da semana, com algumas estatísticas, para quem gosta de números, e também um pouco de história. Biografias, artigos especiais sobre jogadores e jogos inesquecíveis também sairão nessa coluna; então, não deixem de acompanhar.
O assunto desta semana no “Passando a limpo”, como não poderia deixar de ser, será a seleção masculina de basquete, os pedidos de dispensas e o pré-olímpico que se aproxima.
Hoje temos que lidar com a desorganização de nossa confederação e com jogadores sem espírito patriota, e não conseguimos ir a uma olimpíada desde 1996, em Atlanta. Mas se engana quem pensa que nosso basquete sempre foi assim. Se hoje somos insignificantes no cenário mundial, outrora fomos grandes potências, conquistando títulos e medalhas frente as poderosas seleções de EUA e da extinta URSS.
O primeiro grande feito de nossa seleção foi nos jogos olímpicos de 1948, em Londres. A 2ª guerra mundial havia terminado e o as olimpíadas estavam de volta. Naquele ano, conquistamos a medalha de bronze, ficando atrás apenas de França e do favorito absoluto EUA. O elenco brasileiro estava desfalcado e contava apenas com 10 jogadores, contra 14 dos adversários e, mesmo contra as adversidades, impomos uma forte defesa e saímos com o bronze no peito. Foi a primeira medalha do basquete brasileiro em olimpíadas. Foi o marco inicial para inúmeras conquistas.
Em 1959, outra conquista inesperada, mas dessa vez uma surpresa maior ainda. Conquistamos o nosso primeiro campeonato mundial, torneio disputado no Chile. Liderados por Wlamir Marques e Amaury Passos, principais jogadores da equipe, surpreendemos a todos perdendo apenas para a União Soviética, e superando inclusive os EUA. É verdade que um detalhe político fez a diferença para que no sagrássemos campeões. A URSS se recusou a enfrentar a China e ficou fora da decisão do título. Mas isso não tira os méritos de nossos atletas que realizaram façanha inédita.
Jatyr e Algodão completavam a base dauela seleção ao lado de Wlamir e Amaury, mas a equipe também tinha um destaque fora de quadra, no banco de reservas: o técnico Togo Renan Soares, conhecido como Kanela, dava seus primeiros passos em uma trajetória de sucesso. Kanela se tornou o técnico mais vitorioso da história de nossa seleção. Logo em seguida, em 1960, nos Jogos Olímpicos de Roma, conquistamos outra medalha de bronze, mas o melhor ainda estaria por vir alguns anos depois.
Em 1963 a seleção repetiu a dose no mundial, dessa vez disputado aqui mesmo no Brasil. Sagramo-nos bi campeões mundiais. O Brasil passou por 12 adversários e saiu sem sofrer nenhuma derrota, vencendo inclusive adversários como Iugoslávia, URSS e EUA. Foi a consagração do esporte brasileiro, que colocou seu nome na galeria entre as principais equipes do mundo.
Nos jogos de 1964, em Tóquio veio mais uma medalha de bronze, e em 68, na Cidade do México um quarto lugar. Em Munique-72 a seleção entrou em um período de decadência com os principais jogadores se aposentando e ficou apenas em sétimo, e, em Montreal – 76 não conseguimos classificação.
Em 1980, voltamos aos jogos graças ao surgimento de uma nova geração liderada por Oscar Schimdt, que participou de de 5 olimpíadas (de 1980 até 1996) e se tornou o maior cestinha da história dos jogos, com 1093 pontos em 38 partidas, uma incrível média de 28,7 ppg. Infelizmente Oscar não conseguiu uma medalha olímpica; os melhores resultados foram três quintos lugares, em 1980, 1988 e 1992.
Mas, mesmo sem conseguir uma medalha olímpica, Oscar entrou para a história com uma conquista em outros jogos, os Pan-americanos. Em 1987, a competição foi disputada em Indianápolis – EUA, e Oscar, ao lado de Marcel, conseguiu uma medalha de ouro emocionante vencendo os donos da casa e favoritos ao título na final do torneio. A seleção americana jamais havia perdido um jogo de basquete em casa, e esta derrota mostrou aos americanos a força do basquete brasileiro.
Oscar se aposentou da seleção em 1996 após as olimpíadas, e desde então o basquete nacional nunca mais conseguiu grandes conquistas. Se quer conseguimos classificação para os Jogos Olímpicos após a saída do “Mão Santa”. E uma seleção que já foi potência do esporte, hoje tem que conviver com fracassos consecutivos.
Hoje o Brasil conta com inúmeros jogadores em times da Europa, e inclusive na Liga americana de basquete, a NBA, mas os fracassos recentes devem se repetir no Pré-olímpico que se aproxima. Pedidos de dispensas dos principais jogadores envergonham todo um país que já foi acostumado a grandes conquistas e hoje tem que agüentar desorganização, fracassos e a falta de patriotismo e de respeito à seleção de alguns jogadores.
Talvez nossos dirigentes e jogadores atuais precisem de uma aulinha de história do esporte para aprender a respeitar essa nação que já esteve entre as maiores do mundo e hoje é motivo de piada para os adversários.
