Arquivo do autor:Gabriel Melloni

Início de uma nova realidade

O possível êxodo de jogadores da NBA para a Europa parece começar a fazer efeito. As notícias de que times do velho continente estariam fazendo propostas a jogadores da maior liga de basquete do mundo estão cada vez mais constantes. Michael Finley, James Posey, Anthony Parker e Ricky Davis já tiveram seus nomes vinculados a boatos de transferências para o Olympiakos (GRE), que já levou para sua equipe o ala-armador Josh Childress, ex-Atlanta Hawks. O pivô Alexander Johnson, do Memphis Grizzlies, foi contratado pela equipe alemã do Brose Baskets (equipe base da Seleção da Alemanha) e o TAU Cerámica, de Tiago Splitter, está de olho em três pivôs da NBA.

Nesta semana, o pivô do Los Angeles Lakers, Andrew Bynum, complicou as negociações de renovação de contrato com a equipe californiana. Tudo porque o o jovem jogador de 21 anos exigiu uma quantia mensal de 17 milhões de dólares. Um alto valor para um jogador tão jovem que já se contundiu gravemente. Até por isso, a diretoria da franquia achou o valor absurdo e não deve renovar seu contrato.

Aparentemente, essas notícias não têm nada em comum, mas Bynum pode ser apenas o exemplo de uma nova tendência na NBA. Com os clubes europeus oferecendo fortunas para a contratação de jogadores, estes mesmos devem começar a abusar de suas equipes, negociando salários astronômicos e impossibilitando a renovação. Este será um problema novo, com o qual a NBA não está acostumada a lidar. Sempre soberana, a liga se dá ao luxo de imprimir um limite de salários às franquias e, ainda, puni-las se saem de tal limite. Pode não ser o caso de Bynum, mas não se surpreenda se casos como esse se tornarem comuns a partir de agora.

O fim do armador clássico?

O armador Steve Nash, do Phoenix Suns, anunciou que pretende se retirar das quadras em quatro anos. O veterano de 34 anos disse que pretende renovar seu contrato com o time por mais dois anos. Nash tem um vínculo contratual de dois anos junto ao Phoenix, o que lhe rende 26 milhões de dólares.

Com a aposentadoria de Nash e o fim da carreira de Jason Kidd, que parece estar cada vez mais perto, já que o jogador não é mais nenhum jovem, a NBA fica carente de armadores clássicos, jogadores que se sobressaem não pelas infiltrações ou belos arremessos, mas sim pelas assistências. Nash e Kidd talvez sejam os últimos remanescentes desse tipo de jogador na NBA. Atletas como Bob Cousy, que revolucionou a maneira de um armador jogar; Isiah Thomas, que, apesar de marcar muitos, pontos tinha média de 9.3 assistências por jogo; Magic Johnson; ou Oscar Robertson, com média de 9.5 assistências por jogo, não existem mais. Hoje, o armador joga mais pra si próprio do que para o time. Como é o caso de Allen Iverson, que tem média de 27.9 pontos por jogo, mas apenas 6.3 assistências; Dwayne Wade, que tem médias muito parecidas, entre outros.

Hoje em dia existem outras preocupações na cabeça dos atletas além do próprio basquete. Eles querem aparecer cada vez mais, ganhar mais dinheiro, serem conhecidos e reverenciados, e normalmente quem tem todos esses privilégios é quem pontua mais, quem é o maior cestinha. Isso faz com que desde criança os futuros jogadores aprendam a arremessar, infiltrar e esquecem da armação em si, do passe.

As mudanças ocorrem em qualquer esporte e não são necessariamente boas nem ruins. Mas se o armador “clássico” não fosse tão importante para NBA, por que então um jogador como Nash tem dois títulos de MVP? Em um basquete em que todos os armadores pegam a bola e querem decidir, os que se destacam são os que pensam na equipe.

O possível êxodo europeu

A NBA se acostumou, durante toda sua existência, a ver jogadores de seus times indo jogar basquete na Europa. Jogadores medianos, que dificilmente entravam em quadra, ou que eram jovens demais, eram constantemente contratados por clubes do velho continente e faziam carreira por lá. A lógica para os bons jogadores sempre foi inversa. Muitos saiam da Europa quando começavam a se destacar e iam jogar no melhor basquete do mundo.

Mas essa lógica parece estar ameaçada. Alguns desses jovens jogadores que se destacam na liga européia têm preferido ficar por lá mesmo nos últimos tempos. Jogadores como Dejan Bodiroga, que preferiu construir carreira no Barcelona, Tiago Splitter, que optou por passar mais um tempo na Espanha, acabaram fazendo essa opção pelos salários. Na NBA, há um limite de salários, chamado “Cap Rom”, que cada equipe pode gastar com todo seu elenco, e, se sair desse limite, a franquia é obrigada a pagar uma multa de um dólar à liga por cada um gasto acima do teto salarial.

Com essa norma e com os clubes europeus se organizando cada vez mais e criando estrutura para o basquete, começam a surgir rumores sobre a transferência de grandes jogadores para lá. Em 2010, jogadores como Kobe Bryant, LeBron James, Chris Bosh e Dwyane Wade se tornam free agents, ou seja, ficam sem vínculo contratual com suas equipes. Um dos grandes especialistas de NBA e mentor de Kobe, Sonny Vaccaro, já declarou que acredita que a possibilidade do astro do Lakers deixar a NBA rumo à Europa é grande. Segundo ele, Kobe seria o maior astro da história do basquete europeu, o jogador mais bem pago da história do basquete e arrecadaria como nunca no marketing. Além de poder voltar para os EUA um ou dois anos depois em condições de continuar a carreira.

Talvez o que segure esse astros à NBA seja o nome, o status de estar jogando no melhor basquete do mundo. Mas se esse tipo de transferência se tornar comum, os cofres das franquias darão uma esvaziada e sabe-se lá o que isso poderá ocasionar. O que deve acontecer de fato é o aumento desse Cap Rom, porque senão, a hegemonia da NBA poderá ser ameaçada.

Nem sempre as estrelas trazem sucesso

Uma notícia divulgada em um grande jornal de Denver surpreendeu os torcedores do Nuggets. A diretoria da equipe estaria interessada em envolver Allen Iverson em uma troca na próxima trade deadline, no início do ano que vem. Ao mesmo tempo, surge a notícia de que Vince Carter estaria na mira do Cleveland Cavaliers, sendo envolvido em uma troca com Wally Szczerbiak. Pode parecer que não, mas essas duas notícias têm muita coisa em comum.

Iverson chegou ao time do Nuggets para fazer uma grande dupla com Carmelo Anthony e tornar a equipe uma das melhores da NBA. No entanto, a dupla, apesar de marcar bastante pontos, não conseguiu fazer o Denver chegar muito mais longe de onde chegara sem eles. Allen tem um contrato de mais de US$ 20 milhões, o que obriga o Denver a pagar uma multa de US$ 6.3 milhões para a Liga todos os anos. Ou seja, evidentemente o valor investido não foi bem aproveitado. Allen sempre foi um jogador de decisão, cestinha, que gosta de ter a bola nas mãos para finalizar a jogada, assim como Carmelo. Talvez por serem jogadores com as mesmas características individualistas essa parceria não tenha dado certo.

Vince Carter ficou famoso na NBA por suas atuações com a camisa do Toronto Raptors, onde era o cestinha, o jogador de decisão, que gosta de ter a bola nas mãos para finalizar a jogada. Mas a equipe do Cleveland, para onde Carter se transferiria, já possui um jogador com essas características: Lebron James. Por que tentar repetir uma receita que tantas vezes não deu certo, não só no basquete como em outros esportes, de contar com estrelas demais no mesmo time? E mais, estrelas com características semelhantes.

A verdade é que em todos os esportes os times tendem a ser megalomaníacos, buscando sempre os melhores, os que aparecem mais na mídia, até como estratégia de marketing. Mas o esporte já nos ensinou que não é assim que se monta uma equipe vencedora. Nem sempre as maiores estrelas formam os melhores times.

Vem aí mais uma temporada

Deu a lógica no torneio de basquete dos Jogos Olímpicos de Pequim. O time americano, sempre favorito, soube exercer sua supremacia técnica e física para atropelar os adversários um a um. Na decisão do ouro, a vítima foi a Espanha, de quem também se esperava uma boa campanha por ser a atual campeã mundial. O bronze ficou com a Argentina, em decisão contra a Lituânia, duas seleções que corresponderam as expectativas e mostraram um grande basquete.

Com o término da disputa, todos os olhos dos fãs do basquete voltam-se novamente para a NBA e mais uma temporada que começa no final de outubro. Antes mesmo do início da competição, algumas equipes já são credenciadas como favoritas. Por terem os melhores elencos e contarem com bons retrospectos recentes, equipes como Spurs, Celtics e Lakers iniciam a temporada como grandes candidatos ao título.

Correndo por fora, mas com boas equipes, Mavericks e  Hornets são os maiores candidatos a desbancar os favoritos e conseguir seu primeiro título na NBA. O Dallas dependerá muito de Jason Kidd. Se o armador conseguir se entrosar com a equipe e repetir suas atuações dos tempos de Nets, a equipe texana terá grandes chances de brigar pelo campeonato. O New Orleans conta com uma ótima equipe, municiada por um grande armador. Chris Paul terá mais uma vez a responsabilidade de conduzir os Hornets em sua campanha. Mais experiente, o armador deverá ser um dos principais destaques da NBA nessa temporada.

As equipes ainda estão se preparando técnica e fisicamente e buscando reforços para a temporada. Alguns times se reforçaram bem, como o 76ers, que contrataram Elton Brand. Mas será que alguma equipe será capaz de acabar com a superioridade dos três favoritos? No mês que vem começaremos a descbobrir.